As primeiras 24 horas de vida do leitão: o período decisivo para a sobrevivência e o desempenho na maternidade
- Tipo
- Artigo técnico
- Tema
- Manejo e produção
- Autor
- GZ ASSESSORIA
- Publicado em
- 18/10/2026
- Duração
- 8 minutos
A colostragem, o controle térmico e a assistência ao nascimento são fundamentais para reduzir a mortalidade neonatal. Entenda o que a ciência demonstra sobre as primeiras 24 horas de vida dos leitões e como transformar esse conhecimento em melhores resultados na maternidade.
Introdução
As primeiras 24 horas de vida representam um dos períodos mais críticos da produção suinícola. Nesse intervalo, o leitão precisa se adaptar rapidamente ao ambiente externo, manter sua temperatura corporal, iniciar a ingestão de colostro e desenvolver condições para sobreviver e crescer.
Apesar dos avanços genéticos que proporcionaram leitegadas cada vez mais numerosas, a mortalidade pré-desmame continua sendo um importante desafio econômico e zootécnico.
O aumento do número de nascidos vivos não significa necessariamente maior quantidade de leitões desmamados. Para transformar potencial genético em produtividade, é indispensável investir em manejo neonatal eficiente.
Pesquisas científicas demonstram que o peso ao nascimento, a ingestão de colostro, a temperatura corporal e o vigor neonatal estão diretamente associados às chances de sobrevivência dos leitões.
1. O desafio fisiológico ao nascimento
Ao nascer, o leitão enfrenta uma mudança brusca de ambiente. Durante a gestação, permanece protegido em temperatura próxima de 39 °C. Após o nascimento, passa a enfrentar temperaturas ambientais significativamente inferiores.
O recém-nascido possui reservas energéticas limitadas, pequena quantidade de gordura corporal e elevada relação entre superfície corporal e peso vivo, características que favorecem a perda rápida de calor.
Quando ocorre hipotermia, o leitão utiliza parte importante de suas reservas energéticas para tentar manter a temperatura corporal. Consequentemente, pode apresentar redução da atividade, dificuldade para localizar os tetos e menor ingestão de colostro.
Esse processo pode estabelecer um ciclo prejudicial: o leitão perde calor, fica mais fraco, mama menos e apresenta maior risco de mortalidade.
Os animais de menor peso ao nascimento merecem atenção especial, pois geralmente apresentam maior vulnerabilidade.
2. Colostro: a primeira proteção do leitão
O colostro é a primeira secreção produzida pela glândula mamária após o parto. É rico em imunoglobulinas, energia, nutrientes e compostos bioativos fundamentais para o desenvolvimento neonatal.
Devido às características da placenta suína, praticamente não ocorre transferência de imunoglobulinas maternas para os fetos durante a gestação.
Por esse motivo, os leitões dependem da ingestão de colostro para adquirir imunidade passiva.
Além da proteção imunológica, o colostro fornece energia para a termorregulação e contribui para o desenvolvimento intestinal.
A capacidade de absorção das imunoglobulinas diminui rapidamente nas primeiras horas após o nascimento. Portanto, a ingestão precoce é tão importante quanto a quantidade consumida.
Quanto colostro o leitão precisa consumir?
Segundo a revisão científica de Quesnel, Farmer e Devillers (2012), o consumo de aproximadamente 200 g de colostro por leitão nas primeiras 24 horas representa uma referência importante para a sobrevivência neonatal.
Os autores apontam que o consumo de aproximadamente 250 g pode favorecer a saúde e o desenvolvimento antes e depois do desmame.
Esses valores não devem ser interpretados como garantia individual de sobrevivência, pois fatores como peso ao nascimento, vigor, ambiente e estado sanitário também influenciam os resultados.
Em leitegadas numerosas, a quantidade limitada de colostro e a competição pelos tetos podem dificultar o consumo adequado, principalmente entre os leitões menores.
3. O que demonstram os estudos científicos?
Um estudo realizado por Devillers, Le Dividich e Prunier (2011), envolvendo 526 leitões de 40 leitegadas, demonstrou a importância da ingestão de colostro para a sobrevivência neonatal.
Os leitões que morreram antes do desmame apresentaram, em comparação aos sobreviventes, menor peso ao nascimento, menor ingestão de colostro, menor temperatura retal e menores concentrações sanguíneas de glicose e imunoglobulina G nas primeiras 24 horas.
Os resultados reforçam que a sobrevivência neonatal depende de uma combinação de fatores nutricionais, imunológicos e metabólicos.
Outro estudo, publicado em 2014 na revista Preventive Veterinary Medicine, avaliou 600 leitões e identificou que a ingestão adequada de colostro pode melhorar as chances de sobrevivência de animais com menor peso ao nascimento.
Isso demonstra que o baixo peso representa um fator de risco importante, mas que o manejo adequado pode contribuir para reduzir seus efeitos negativos.
4. Hipotermia: um dos principais riscos neonatais
A manutenção da temperatura corporal deve ser uma prioridade imediatamente após o nascimento.
O leitão molhado perde calor rapidamente, principalmente quando exposto a pisos frios e correntes de ar.
A secagem imediata e a disponibilização de uma área aquecida são estratégias importantes para reduzir esse problema.
Estudos científicos sobre secagem e aquecimento neonatal demonstram benefícios dessas práticas na manutenção da temperatura corporal durante as primeiras horas de vida.
Recomendações práticas
- Secar os leitões imediatamente após o nascimento, utilizando material limpo e apropriado.
- Disponibilizar uma área aquecida, seca e protegida de correntes de ar.
- Identificar animais com tremores, fraqueza ou dificuldade de locomoção.
- Reaquecer os leitões hipotérmicos de maneira controlada.
- Auxiliar os animais recuperados a alcançar o úbere e realizar a primeira mamada.
É importante lembrar que a matriz e os leitões possuem necessidades térmicas diferentes.
O aquecimento deve ser concentrado na área destinada aos leitões, evitando temperaturas excessivas para a porca, que podem prejudicar seu conforto e consumo alimentar.
5. Leitegadas numerosas exigem manejo diferenciado
O aumento da prolificidade das matrizes representa um avanço produtivo, mas também exige maior atenção ao manejo neonatal.
Em leitegadas com muitos nascidos vivos, pode ocorrer competição intensa pelos tetos, principalmente quando o número de leitões supera a quantidade de tetos funcionais disponíveis.
Uma estratégia utilizada nessas situações é a mamada fracionada, conhecida como split suckling.
O procedimento consiste em separar temporariamente parte dos leitões mais vigorosos, após terem oportunidade de ingerir colostro, permitindo que os menores tenham melhor acesso ao úbere.
A técnica deve ser executada por funcionários treinados, mantendo os leitões separados em ambiente aquecido e evitando períodos prolongados sem alimentação.
A uniformização das leitegadas também deve ser realizada criteriosamente, considerando a capacidade das matrizes e a necessidade de preservar a colostragem inicial.
Sempre que possível, os leitões devem receber colostro da própria mãe antes de serem transferidos.
6. Protocolo de manejo nas primeiras 24 horas
Do nascimento aos primeiros 30 minutos
Avaliar a respiração e o vigor, realizar a secagem, oferecer aquecimento e auxiliar o leitão a localizar o úbere.
De 30 minutos a 3 horas
Confirmar o início das mamadas e identificar os animais com maior dificuldade de acesso aos tetos.
De 3 a 6 horas
Reavaliar temperatura corporal, comportamento e ingestão de colostro. Em leitegadas numerosas, considerar a mamada fracionada quando tecnicamente indicada.
De 6 a 12 horas
Verificar o desenvolvimento dos leitões de risco, observar a funcionalidade do úbere e avaliar a necessidade de intervenções adicionais.
De 12 a 24 horas
Realizar a uniformização necessária, respeitando a capacidade das matrizes, e registrar os dados e as intervenções realizadas.
Esses horários representam pontos de acompanhamento, não limites para atendimento. Animais em situação de risco precisam receber assistência imediata.
7. Indicadores que devem ser acompanhados
Uma maternidade eficiente precisa transformar as informações do manejo em indicadores de desempenho.
Entre os principais estão:
- Nascidos vivos por parto.
- Mortalidade nas primeiras 24 horas.
- Mortalidade nas primeiras 72 horas.
- Mortalidade pré-desmame.
- Peso médio ao nascimento.
- Percentual de leitões com baixo peso.
- Leitões desmamados por parto.
- Peso médio ao desmame.
O registro correto das mortes é fundamental para identificar problemas e estabelecer medidas corretivas.
Também é importante diferenciar natimortos de leitões que nasceram vivos e morreram posteriormente.
Qual o impacto econômico da redução da mortalidade?
Considere uma granja com 1.000 matrizes, média de 2,4 partos por matriz ao ano e 15,5 nascidos vivos por parto.
Nesse cenário, seriam produzidos aproximadamente 37.200 leitões nascidos vivos anualmente.
Com mortalidade pré-desmame de 10%, a granja desmamaria aproximadamente 33.480 leitões.
Se a mortalidade fosse reduzida para 8%, mantendo os demais indicadores constantes, o número de desmamados aumentaria para aproximadamente 34.224.
Resultado: 744 leitões adicionais desmamados por ano, sem aumentar o número de matrizes.
Essa simulação demonstra como pequenas melhorias nos índices de sobrevivência podem representar ganhos expressivos de produtividade.
Entretanto, o resultado econômico real depende também dos custos adicionais de manejo, do peso ao desmame e das condições de produção.
8. A importância da equipe na maternidade
A eficiência do manejo neonatal depende diretamente da capacitação dos funcionários.
Identificar rapidamente um leitão hipotérmico, reconhecer dificuldades de sucção e compreender a importância da colostragem são habilidades fundamentais.
A padronização dos procedimentos permite reduzir diferenças entre turnos e melhorar a qualidade da assistência.
O acompanhamento deve priorizar os animais de maior risco, evitando intervenções desnecessárias nos leitões que apresentam boa vitalidade.
Treinamento, organização e monitoramento dos indicadores são ferramentas essenciais para transformar o manejo diário em resultados consistentes.
Conclusão
As primeiras 24 horas de vida do leitão representam uma oportunidade decisiva para melhorar a eficiência da maternidade.
A combinação entre colostragem adequada, controle térmico, assistência ao nascimento e manejo criterioso das leitegadas pode contribuir significativamente para a redução da mortalidade neonatal.
Com o avanço genético e o aumento do número de nascidos vivos, o desafio da suinocultura moderna não está apenas em produzir leitegadas maiores, mas em garantir que mais leitões sobrevivam e apresentem bom desenvolvimento até o desmame.
Na maternidade, produtividade não começa no desmame. Começa no nascimento.
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Referências científicas
1. QUESNEL, H.; FARMER, C.; DEVILLERS, N. (2012). Colostrum intake: Influence on piglet performance and factors of variation. Livestock Science, 146, 105–114.
https://doi.org/10.1016/j.livsci.2012.03.010
2. DEVILLERS, N.; LE DIVIDICH, J.; PRUNIER, A. (2011). Influence of colostrum intake on piglet survival and immunity. Animal, 5(10), 1605–1612.
https://doi.org/10.1017/S175173111100067X
3. Effect of birth weight and colostrum intake on mortality and performance of piglets after cross-fostering in sows of different parities. (2014). Preventive Veterinary Medicine.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24674020/
4. A Review of Success Factors for Piglet Fostering in Lactation. (2018). Animals, 8(3), 38.
https://doi.org/10.3390/ani8030038
5. Piglet Viability: A Review of Identification and Pre-Weaning Management Strategies. (2021).
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8532860/
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Portal do Suinocultor — Informação técnica, conhecimento e inovação para uma suinocultura mais produtiva.
www.portaldosuinocultor.com.br
Conteúdo técnico elaborado com base em literatura científica. As recomendações devem ser adaptadas às condições de cada granja e acompanhadas pelo médico-veterinário responsável.